A utopia de Osho na Netflix

A utopia de Osho na Netflix

Documentário sobre Rajneeshpuram levanta questões éticas, principalmente àqueles que professam os ensinamentos tântricos

O mestre indiano Osho, com quem tivemos oportunidade de conviver e aprender durante algum tempo, está no meio de um polêmico documentário produzido pela Netflix, chamado Wild, wild world. Se você ainda não viu, recomendamos. A figura central da produção é a sua secretária Sheela e a construção de uma comunidade-cidade no Oregon, chamada Rajneeshpuram.

O documentário tem o cuidado de não tomar partido e mostra os dois lados da questão – o lado dos saniasins liderados pela mão de ferro da obstinada Sheela e o lado dos moradores antigos do condado próximo à fazenda onde foi construída a comunidade.

Estamos falando sobre esse assunto porque, dentre os discípulos e admiradores do Osho – e até para aqueles que admiram sua obra e seus ensinamentos -, toda essa história parece não condizer com a visão religiosa, libertária, tântrica, zen, taoísta que ele professou durante toda a sua vida.

Realmente, para os tradicionalistas religiosos tântricos (para ficar em nossa área), o desapego e let go, o deixar rolar, ou seja, não querer controlar os acontecimentos, está na base do ensinamento do grande mestre tântrico Tilopa (988-1069) que Osho interpretou em um dos seus quatro livros sobre o Tantra.

A utopia de Osho na NetflixHá uma ambiguidade entre os ensinamentos de Osho e suas ações. Ele não só vivia cercado de riquezas como também tinha intenção de transformar seu movimento mundial em algo maior que as igrejas estabelecidas e construir um “novo homem”, livre das tradições e de todos os “ismos”. Algo que pode ser considerado megalômano, mas que fazia todo sentido para nós que participávamos daquele movimento. Afinal, nosso objetivo era se livrar dos “programas” impostos pela sociedade, da velha forma de pensar, ser realmente livres interna e externamente. Mas há uma questão ética importante aí: até que ponto podemos chegar para atingir um objetivo, por mais nobre que ele seja?

Sheela era o seu braço direito, era quem executava os planos de Osho com profundo amor e incondicional dedicação ao mestre. Talvez por isso, e por querer o reconhecimento dele e até mesmo para protegê-lo de qualquer ameaça ou pessoas, ela tenha se excedido, se descontrolado em suas ações.

Há muito ainda para se discutir, refletir, aprofundar sobre esse acontecimento. Osho sabia de tudo? Penso que não, mas cada um tem seu palpite. Essa é a nossa reflexão aqui do Neotantra sobre a “utopia sanyas”, digamos assim. Muitas coisas foram conduzidas de forma não-ética em Rajneeshpuram e achamos que os meios não justificam os fins. Mas não é por isso que deixaremos de apreciar e seguir os ensinamentos desse grande mestre, que trouxe uma nova visão do Tantra, mais acessível e aplicável na vida diária.

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